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quinta-feira, 26 de abril de 2012

Bicéfalo por segurança

Minha cabeça da direita é de esquerda, minha cabeça de esquerda é de direita. Nenhuma delas é petista. Pra quem sabe, fui criado nas Cabeças. Resolvi dividir minha ambiguidade e as incoerências em dois encéfalos em honra daqueles que são gerados sem nenhum e têm sido obrigados a existir sem serem humanos.
Tornei-me bicéfalo para diminuir a possibilidade de que me considerem anencéfalo. Além disso, havia ideias demais para uma cabeça só; agora, o congestionamento diminuiu.
O diálogo entre as partes, quando em discórdia, é sempre um desacordo moral razoável. Não resulta sempre síntese, mas resolvemos as diatribes no voto: quando há empate, decidimos na porrinha; se continuar empatado, vamos para o cuspe a distância.
Dobrei os gastos com chapéu, cabeleireiro, barbeiro, dentista, oftalmologista, gravatas - o otorrino faz a festa.
Também passei a cobrar em dobro pela revisão, afinal são olhos em dobro a ler os textos alheios. Um travesseiro só continua bastando.
Complica quando cada cabeça quer ler um artigo diferente, tenho que largar um livro para passar a página do que está na outra mão; toda hora faço isso, é chato.

sábado, 7 de maio de 2011

Eu e o velho

Foi por aqui... Mas era noite.
Muitos não sabem das coisas de Ouro Preto, mas os de lá que me conhecem, sabem que meu rumo é o das Cabeças, bairro em que fui criando e onde me estabeleço. Tenho lá perto do Bom Jesus meu ateliê para me esconder e borrar umas telas.
Chegava eu não muito tarde, subindo a ladeira, perto do Grupo das Cabeças (claro que o nome nunca foi esse, mas pra que tentar manter atualização de nomes das repartições públicas?). Era por volta de 21h e eu levava material para um sopa de tomates, uma execrada sacolinha de plástico do supermercado. Pois bem, àquela altura, fui abordado por um velhinho que ia na mesma direção. pensei que fosse algum pedinte. Nós, habitantes da metrópoles, somos treinados a evitar essas abordagens: idoso, aparentando ser pobre (ou talvez abaixo da linha que a Dilma passou no país agora).
Imediatamente, minha primeira impressão se desfez - ele só queria um dedo de prosa - aí, é comigo!
Uma das primeira informações que ele me deu me deixou pasmo, mas esse dado eu vou deixar para o fim, para prender mais a atenção do leitor.
Na verdade o velho tinha uma questão sobre a qual desejava minha opinião: perguntou-me direto se eu achava que ele ainda poderia aprender a ler, se isso ainda seria possível na idade dele. Incrível que ainda existam analfabetos e que alguns deles ainda pretendam reverter essa situação.
Gastei todo nosso curto percurso tentando estimulá-lo, disse que aprenderia sim, precisaria se esforçar mas que a gente não perde a capacidade de aprender. Disse que ser alfabetizado poderia marcar mais uma grande fase na vida dele, que haveria um novo mundo aberto. Entusiasmei-me pela prosa e pelo proselitismo da causa. Tinha que ser breve, pois não teríamos muitos metros juntos. Usei de toda minha andragogia. Contei para ele que eu havia sido professor, que ensinara em muitos lugares, mas que uma das coisas mais importantes que já havia eu feito fora alfabetizar duas meninas. Devo ter usado uns bons bordões de apoio, reforço da ideia e... cheguei aonde ia, me despedi. Ele disse que ia mais acima tomar uma pinga e nos despedimos; entrei para tomar a minha com a sensação de dever cívico cumprido.
A terrível informação que me deixou pasmo? Bem, o dado de ser analfabeto é terrificante, mas, além disso, a avançada idade que gerava dúvida no velho sobre a possibilidade de ser alfabetizado era de quase cinquenta anos! O mesmo número que alcanço logo depois do solstício do próximo verão... e era velho!

Leia mais neste blog: Azo a crônicas - A padroeira - Soneto da disputa - Chafariz da Coluna
Leia também no blog da Keimelion: Como escrever palavras compostas Emprego da crase - Locuções com e sem crase

domingo, 24 de abril de 2011

Desarticulando - Ideias ouro-pretanas

Coletânea de textos e ideias bem típicas de um ouro-pretano, não são apenas artigos, mas alguns textos foram propositadamente desarticulados para propiciar leitura esparsa e agradável.
No ano em que Ouro Preto completa 300 anos da autonomia política, essa obra é também a homenagem de um cidadão que nasceu e foi educado naquela cidade, com a qual mantém vínculos indeléveis e dos quais manifesta grande orgulho.
As críticas aqui expostas vêm no bojo deste orgulho cidadão consciente de que "'Ouro Preto não é um museu'. Vi frases equivalen-tes em vários templos europeus, abertos aos visi-tantes, mas permanentes no culto. Há 300 anos que Vila Rica, depois Ouro Preto, é uma urbe (um conjunto urbano) uma civitas (coletivo de cida-dãos) e uma polis (entidade política) – os templos de musas que há ali são integrantes das três constituintes da cidade, mas a cidade não se limita a eles nem se destina a eles."

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sexo dos anjos

Capela do Padre Faria
As coisas pela internet evoluem sempre, nem sempre segundo se espera. Aqui vão algumas notas sobre uma discussão bem genérica, colocada sob o ponto de vista ouro-pretano  - que há de ser sempre o meu ponto de vista.

  • Felipe Stefani Anjos tem sexo?
  • Maria Do Rosario Pacheco É uma longa discussão...
  • Antonio Sergio Fernandes Essa coisa de saber se é anjo ou anja, é que nem saber se o Piu Piu (do desenho Piu Piu e Frajola) é um passarinho menino ou menina. Afinal, Piu Piu é menino ou menina?
  • Maria Do Rosario Pacheco Mas essa é mais fácil. No sincretismo da Umbanda, Piu Piu é Erê... é como se fosse um pintinho q não vai crescer. Não precisamos imaginá-lo como galo ou galinha, porque ele será sempre criança.
  • Felipe Stefani antes de dele(a) virar Piu Piu eu me pergunto; Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?? São perguntas eternas por que são eternas perguntas...
Neste ponto, ou mais adiante, veio minha interferência esclarecedora:
  • Igreja de São Miguel e Almas
    (Bom Jesus de Matosinhos)
    Publio Athayde
    Gente, desde pequeno me diziam que quem tem piu-piu é menino (no desenho animado que tem é a velha). O tal piu-piu! no Aulete Eletrônico tem, está registrado assim, com exclamação! (curiosíssimo!) - e o verbete só tem o seguinte registro: (Trás-M) - ... e nada mais.
    Argumentem os senhores e senhoras que piu-piu! - e uma coisa e Piu Piu é outra, sepequem argumentos onomatopaicos ou metafórico-antropozoomórficos, sei por mim que anjos há dos dois sexos - e de vários gêneros e transgêneros.
    Primeiramente, os barrocos, com o quais convivi desde mais tenra idade, têm em geral seus piu-pius! (maldita !) bem à mostra - exceto quando tenham sido capados. Na igreja do Padre Faria, em Ouro Preto, os pingolins angelicais estão todos em uma caixinha de sapato na sacristia, depois de terem sido decepados à ordem de algum mentecapto. Então os anjos eram machos e ficaram eunucos. Isso se refere normalmente a putos e querubins, despudorados mostradores de genitália.
    Naquela mesma cidade, à época de minha infância, vestir de anjo era coisa de menina, exclusivamente. Hoje em dia, nas procissões já se vêem querubins e anjos meninos, mas sempre com os sexos devidamente tampados por túnicas romanas (interessante que o Império Romana tenha se estendido ao excelso, impondo-lhe até as vestimentas). No entanto, os arcanjos das procissões ainda são fêmeas casadoiras de longos cabelos. Nem as romanas vestes lhes ocultam as formas feminis. Já pouco acima de minha casa, sempre naquela cidade, está a igreja de São Miguel Arcanjo, com o titular no frontispício - da lavra do Alijadinho (que sabia bem de anjos). Ali o arcanjo é macho de verdade. Soldado romano (olha a colonização latina de novo!), de gládio fálico desembainhado e ereto, nem precisa que se lhe levante o saiote militar para sanar qualquer dúvida.
    Quod erat demosntrandum, há anjos machos, fêmeas, epicenos, transgênicos, comuns de dois gêneros, assexuados, neutros e, provavelmente HSH (segundo denominação ministerial que recém aprendi).
    Para gáudio geral, há ainda a querela de gênero - que para o sociólogos é uma coisa e para os linguistas outra. E a querela de sexo, que para os biólogos é uma coisa e para os psicanalistas outra. Já para os restauradores, sexo é o berimbau cortado dos anjinhos barrocos, sobre os quais eles não se entendem se deveriam ser recolocados em seus respectivos entrepernas - ou vendidos a turistas desavisados, sempre compradores de quinquilharias fálicas e falsas.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A coleção do Museu do Oratório

Por André Legos* (et alii)
A coleção do Museu do Oratório, em Ouro Preto, como já sugerido em seu nome, constitui-se de oratórios e imagens brasileiros datados do século XVII ao XX. Feitos de materiais diversos, com a predominância do uso da madeira, a coleção apresenta raridades como o oratório feito em ovo de ema.
O uso de oratórios tem origem na Idade Média e chegou ao Brasil no processo de expansão portuguesa. Inseridos na cultura de diversas regiões, grupos sociais e perdurando por diferentes épocas, os oratórios brasileiros adquiriram diferentes usos e faturas. Portanto, cada tipo de oratório tem a capacidade de documentar o desenvolvimento técnico, a linguagem estética, a relação com o sagrado e as práticas religiosas dos diversos grupos que compunham os períodos que representam.
Considerando os fatores acima relacionados, os oratórios da coleção de Ângela Gutierrez foram classificados de acordo com o uso, forma, local, estética, período e usuário. Dividem-se em quatro grandes grupos: Oratórios de Viagem, Oratórios Populares Domésticos, Oratórios Afrobrasileiros e Oratórios Eruditos e de Referência Artística.
O grupo de Oratórios de Viagem possui oratórios de pequena dimensão, portáteis, que eram utilizados comumente por viajantes, mas também como amuletos e objetos de fetiche. Os oratórios presentes nesse grupo são: oratórios de algibeira e oratórios-pingentes, usados no dia-a-dia e junto ao corpo; oratórios de alcova, utilizado pelas mulheres e passados de mãe para filha; oratório de esmoler, oratórios itinerantes exclusivos do espaço urbano utilizados para arrecadar dinheiro para as irmandades; oratórios-balas, oratórios em formato de bala de cartucheira, fecháveis, de uso comum a viajantes; oratórios de convento, caixilhos decorados, com gravura ou estampa de santos feito por conventos para venda e arrecadação de dinheiro.
O segundo grupo, Oratórios Populares Domésticos, é constituído de oratórios de uso doméstico, ocupavam lugar de destaque na casa, normalmente de grande porte, era usado em preces coletivas. Além de ocuparem também os quartos, ganhando caráter mais íntimo. Normalmente em forma de armário, possuem tamanho e decoração variados de acordo com o uso e a condição financeira do devoto.
Os Oratórios Afrobrasileiros possuem a marca do sincretismo religioso. Normalmente em forma de armários e entalhe simples, esse grupo apresenta exemplares feitos em metal. As imagens não possuem erudição na fatura e os ícones mais usados eram o Divino Espírito Santo, Virgem do Rosário, São Jorge, São Cosme e São Damião, Santa Ifigênia, São Sebastião e Santo Antônio. É comum o uso de símbolos geométrico de significados místicos como elementos decorativos. Nos oratórios eram guardados diferentes tipos de objetos, inclusive colares do candomblé.
Os Oratórios Eruditos são os que possuem referência na produção artística da época. Pertencentes às classes mais abastadas, normalmente são grandes oratórios, em forma de armário, com talha e policromia sofisticada. São recorrentes os temas barrocos e rococós, com a presença de conchas, rocalhas, volutas e rendilhados. Esse grupo possui os oratórios do fluminense Francisco Xavier dos Santos, decorados com conchas. Além desses, esse grupo possui um oratório cuja pintura é atribuída a Manuel da Costa Athayde e uma imagem a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.
A maioria das peças que compõem a coleção do Museu do Oratório não possui autoria comprovada, isso devido à assinatura de obras não ser usual. A partir de um estudo da obra e por meio de documentação pode ser possível identificar a autoria. Alguns objetos da coleção são feitos por artífices, que não possuíam linguagem singular, sendo a autoria impossível de ser identificada, por vezes sendo apenas levantados dados sobre a região e o grupo que os fizeram, isto pelo estudo dos materiais, técnicas e linguagem.
*André Legos estuda Museologia na UFOP.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Ouro Preto: a Praça não é do povo

Flávio Andrade repudia
a forma do 21 de abril
Carta de Protesto redigida pelo Vereador Flávio Andrade

Este 21 de Abril ficará na memória dos ouro-pretanos. Nos meus 55 anos de vida, não me lembro de comemoração mais ostentativa e desrespeitosa para com a minha terra.

A Praça Tiradentes, coração de Ouro Preto, ficou praticamente fechada por uma semana, atravancando o funcionamento da cidade viva. Na entrada do espetáculo da Bibi Ferreira, fomos revistados humilhantemente, como se fôssemos assaltantes ou terroristas. Ouro-pretanos que saíram pra trabalhar nesta terça feira foram proibidos pela Polícia de passar a pé pela Praça Tiradentes. O monstruoso aparato montado para a comemoração assustou a todos.

Em tempos de crise, a gente se pergunta: quanto custou esta festa? Palanques enormes na Praça Tiradentes e na Praça da UFOP. Centenas de policiais. Dezenas de técnicos e operários por uma semana em Ouro Preto. Transporte e a alimentação pra este povo todo. Equipamentos de som e luz sofisticados, montados nas duas praças. Grades fechando cada canto onde alguém poderia passar. Helicópteros cruzando o céu pra lá e pra cá o dia todo. Centenas de flores e medalhas. Horas e horas de trabalho de servidores do Governo do Estado. Cachês de artistas. Ônibus e mais ônibus transportando claques com pulserinhas e bandeiras do partido do Governador.

Será que não dava pra homenagear a Inconfidência Mineira de maneira mais digna e verdadeira? Será que este show-bussines não bate de frente com os famosos e tão decantados ideais da Conjuração Mineira? Será que não seria mais respeitoso com a memória de quem morreu pelo Brasil fazer um evento menos espalhafatoso? Será que não bastaria colocar uma coroa de flores aos pés de Tiradentes, como Juscelino fazia?

Patrocinar esta gastança de dinheiro público num tempo de crise e desemprego é rir do sofrimento e da dignidade do povo mineiro.

Não é esquisito comemorar a Liberdade proibindo pessoas de andarem em sua própria cidade? Revistando pessoas de bem como se fossem bandidos.
(...)
Sou contra este tipo de comemoração. Ouro Preto quer outro tipo de festa. Quer um evento com a participação de autoridades, artistas, policiais e, principalmente, dos donos da casa.

Os ouro-pretanos, de nascimento ou por adoção, dividimos nossa praça literalmente com o mundo todo. Só pedimos respeito.

Flávio Andrade
Vereador do Partido Verde de Ouro Preto 
Leia tudo sobre 21 de abril, depois leia ainda:  Polêmica no barroco mineiro - Senhor Cê - Caixa d'água, na Água Limpa - Ponte do Pilar

sábado, 18 de abril de 2009

O som, o tom e a melodia colonial ...


A caverna em que habito fica numa região em que há muitas outras. Passei nela uma madrugada acordado, tentando ouvir o silêncio da noite – nem havia estrelas. As outras pessoas que vivem comigo não produziam nenhum ruído, provavelmente dormissem...
Mas o que menos pude ouvir foi o silêncio. Não havia nenhum fogo em minha espelunca, mas várias luzes penetravam pelas frestas, nenhuma delas natural. Mas havia ruídos das cavernas adjacentes, de todos os lados, das pessoas transitando entre elas, e dos fogos sempre acesos em algumas delas, de animais... Nunca há silêncio, quando há tantas cavernas.
Do silêncio da noite, aquele que nos permite ouvir a voz das estrelas, só pude ter a saudade de algum dia bem distante quando estive em lugar bem menos habitados, lugar em que o fogo mais perto, em linha reta, teria viajado alguns anos antes de chegar a mim. E os ruídos eram das folhas, dos insetos, o ar se movimentando... Sons que não se sobrepõem ao éter ou ao atrito da atmosfera com o planeta em seu giro diário.
Fiquei imaginando qual seria, há 200 anos, o som da noite no lugar mesmo em que nasci ... Quando ali haveria poucas cavernas e a centésima parte das pessoas dentre as quais eu vivo. E muito poucos lumes e candeias competiam com a radiação dos astros.
Entendi então que, para ter uma idéia qualquer sobre a noção de som, a compreensão de tons e a melodia da música colonial, o ponto de partida seria a aceitação do fato de que os habitantes das cavernas por perto de onde eu nasci, 200 anos antes dessa efeméride, seriam em número muito menor, teriam muito menos fogos a crepitar pela noite, ficariam muito mais recolhidos depois de o sol se por... E estariam muito mais propriamente afetados pela calada da noite. E não é na calada da noite – agora no sentido moderno mesmo da expressão – que estamos mais afetados pelos medos, pelas melancolias, pelos fantasmas e pelas fés? Acredito que a centésima parte das pessoas produzam a centésima parte dos ruídos e tenha motivos para ter cem vezes mais medos.
Fico imaginando a acuidade auditiva dessas pessoas acostumadas a perscrutar dentre o mais profundo abismo sonoro das noites setecentistas os ruídos mas horripilantes das travas e os mais alentadores hinos angelicais.
Nesse contexto de outrora e de agora, dois elementos de análise surgem a se considerar: o som enquanto fenômeno físico e, simultaneamente, inserido em concepções culturais; e, do outro lado, a música propriamente dita, isto é, o som “culturalmente organizado” pelo homem.
O Pe. José Maurício deslumbrando D. João VI e respectiva
Corte com a sua música, segundo Henrique Bernardelli.
Acervo do Ministério das Relações Exteriores, RJ.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A peleja infernal ente Vinicius e Zé Badu

... uma situação vivida por Vinicius de Moraes por estas plagas.
Vamos voltar no tempo, para o mesmo ano em que nosso herói seguiu para Londres, 1938, mais precisamente em agosto desse ano. O local: Ouro Preto. A missão: “debulhar os arquivos da Igreja de São Francisco de Assis, à cata de recibos comprovantes de umas tantas obras atribuídas a Antônio Francisco de Lisboa, o Aleijadinho”. A equipe: o escritor, e então chefe do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Rodrigo Mello Franco de Andrade; o arquiteto José Reis “e um poeta com o meu nome (Vinicius), que ainda não praticava a arte da prosa”. A verdadeira façanha de Vinicius ocorre no Hotel Toffolo, na hora da ceia de despedida da missão, uma mesa rabelaiseana que dispunha, entre outras coisas, de um indefectível leitão assado e bebidas para todos os gostos. Afora os três boêmios, se encontravam ainda Carlos Flexa Ribeiro, Wladimir Alves de Souza e a figura folclórica de Zé Badu, “violeiro, cantador e contador de velórios”, companhia constante nas noitadas dos visitantes.Essas informações constam da crônica Ouro Preto de Hoje Ouro Preto de sempre, de maio de 1953, disponível no livro de Vinicius Para uma menina com uma flor. Após uma estada que incluiu um namorico com uma jovenzinha de 13 anos chamada, ironicamente, Marília; muita seresta regada a pinga com cerveja; e, “Tarde laboriosas, a verificar papel por papel nas imensas gavetas das enormes cômodas de jacarandá da sacristia de São Francisco de Assis”, nosso poeta se encontra agora nos fundos do Café do Hotel Toffolo, participando de um desafio de improviso inusitado com Zé Badu. O violeiro mineiro sempre gostou de provocar, na camaradagem cachaceira das noites frias da brincadeiras bairristas, retrucadas e levadas com humor por Vinicius. Agora, em plena festa da ceia, de pinho em punho, o cantador resolve tirar uma quadrinha espicaçando a carioquice de nosso herói que, participando de um desafio pela primeira vez, e estimulado pela platéia de comensais, lança de volta outra quadra “bolindo com Minas”. E assim, pouco a pouco, entre goladas e rimas, o negócio esquenta num crescendo, com as ofensas se tornando cada vez mais picantes de ambas as partes...
Vinicius, por incrível que pareça, começa a levar a melhor sobre o profissional da arte do improviso, talvez porque estivesse “um pouquinho mais sóbrio”. Até o instante inesperado em que o exímio cantador travou, não conseguindo mais responder às provocações de seu oponente, e nosso poeta, exuberante, além de continuar improvisando, ainda lança mais três quadrinhas seguidas, que acabaram por definir a incontestável vitória carioca na histórica peleja. A reação do violeiro não foi menos singular do que a sua derrota: parou imediatamente de tocar e abaixou a cabeça em silêncio. Evidentemente ferido em sua vaidade de grande artista popular, olhou com gravidade para nosso herói e para Rodrigo Mello Franco de Andrade; logo a seguir, num gesto que surpreendeu a todos, pega o seu revólver e começa a mandar balas para o alto, “sacudindo o braço em tiros de raiva”. O clima ficou carregado, a festa, obviamente, acabou naquele exato momento.
Depois, na rua, os ânimos já acalmados, Zé Badu revela a Vinicius que só não “atirara em cima” dele porque ele “era do peito”...

MORAES, Vinicius. Poesia completa e prosa. Org: Alexei Bueno. RJ, Nova Aguilar, 1998.

Azo a crônicas...

Contemplação de Ouro Preto

"Falei que comecei a minha peregrinação – porque foi uma peregrinação que eu empreendi, uma caminhada buscando um lugar que somente a fé explica, que foi a fé e sua força tamanha, e suas contradições, que ergueu. Qual é a jóia mais preciosa do universo? O homem quer erguer templos preciosos como uma jóia, que se multiplica, para chegar a Deus, a jóia mais preciosa."

"Mas preciso caminhar, e entro no Museu da Inconfidência, solene e algo misterioso. Cada passo que dou neste lugar é um passo rumo ao incógnito, lá onde mora o tempo com suas barbas antiqüíssimas. Vou separar duas imagens deste museu, não quero falar muito. A primeira são os madeiros do cadafalso de Tiradentes. Quase escrevo da cruz, que foi numa cruz que primeiro pensei quando vi os estranhos madeiros, cruzando-se como as traves de uma cruz. Não foi à toa que representaram Tiradentes como a figura de um Cristo, com longas vestes e barbas, e o olhar sofredor, nesta terra de tantos Cristos agoniados."

Filhos indo estudar em Ouro Preto

"Uma atitude que ajuda os pais, nessa hora de ouvir os filhos sem interferir, apontando sem e sonham com o que poderiam ter sido ou feito mais prazerosamente? Essas reflexões me fazem lembrar de três anos atrás (credo, já se passou tanto tempo?) quando fui levar meu filho à sua nova moradia em Ouro Preto, até hoje a mesma de quando ele ingressou no curso de Filosofia pela Universidade Federal dessa cidade mineira.

Eu, que ainda tenho a mesa que foi de papai no consultório, e pensava às vezes em deixá-la de herança também para meu filho, como já a usa decidir por eles, é um exame da própria consciência: será que eles mesmos estão na profissão que queriam? Tiveram a oportunidade de escolher, ou foram no embalo também, e hojminha filha também psicóloga (por vocação), tive que fazer cara de paisagem ao pensar em quanto talvez meu filho tenha que penar como professor de Filosofia (“sofressor”, como diz pessoa querida) logo em Minas Gerais, meu estado natal, porque para São Paulo ele já avisou que não volta. Enfim, é o que ele quer. Termina no próximo ano seu bacharelado em Filosofia, e já está engatilhando o mestrado."

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Polêmica no barroco mineiro


A pesquisadora e professora da Universidade Federal de Ouro Preto Guiomar de Grammont lançou um livro que derruba vários mitos sobre Antonio Francisco Lisboa (1730-1814), o Aleijadinho. Em Aleijadinho e o aeroplano o paraíso barroco e a construção do herói colonial (Civilização Brasileira, 322 pgs. R$45), ela questiona a paternidade do artista e até mesmo se ele seria tão deformado, já que não existem provas documentais ou materiais de sua doença, ou do impacto que ela teve no seu trabalho. Além disso, sua obra não foi tão vasta quanto se afirma, e muitas peças atribuídas a ele foram fruto de uma criação coletiva, de um ateliê. Um efeito colateral desse processo seria o ostracismo a que foram relegados diversos artistas da época, em prol do mito Aleijadinho. Guiomar mostra que o personagem de ficção Aleijadinho, como uma espécie de Quasímodo tropical, foi criado e recriado de forma fantasiosa desde sua primeira biografia, escrita por Rodrigo José Ferreira Bretãs em 1856, vinculada a um ideal romântico típico da época. Bretas teria inventado, por exemplo, um pai branco português para o artista, para torná-lo mais palatável como herói nacional. O livro é derivado da tese orientada por João Adolfo Hansen.




Guiomar é Brasileira, de Ouro Preto, Minas Gerais. Nasceu a 03 de outubro de 1963.
Graduada em História, Licenciatura Plena e Bacharelado, pelo Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Ouro Preto, em Minas Gerais. Cursou Especialização em Cultura e Arte Barroca no Instituto de Arte e Cultura da mesma Universidade. Realizou o Mestrado em Filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente, cursa o Doutorado em Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo, USP, sob orientação do professor João Adolfo Hansen. Frequentou os cursos da Ecole de Hautes Etudes en Sciences Sociales de Paris durante o ano de 1999 e primeiro semestre de 2000, sendo orientada pelo professor Roger Chartier.
Obteve «Menção Honrosa» na categoria Contos no 22º Concurso da Revista Literária da Faculdade de Letras da UFMG, com o conto «O Diário de Medéia», em 1989.
Publicou o livreto de contos Corpo e sangue, Belo Horizonte: Editora Dez Escritos, 1991.
Concorreu a uma bolsa da Fundação VITAE em São Paulo, com o projeto do romance intitulado A casa dos espelhos, sendo um dos contemplados para o ano de 1992. O romance, com o título Katábasis, produzido com o patrocínio da VITAE, ficou entre os dez finalistas do prêmio Cidade de Belo Horizonte, em 1995.
A coletânea de contos de sua autoria O fruto do vosso ventre foi agraciado com o «Prêmio Casa de las Américas 1993» de Cuba, publicada no mesmo ano em Havana pela Casa de las Américas, e no Brasil, em São Paulo, pela Editora Maltese, em 1994. O livro já foi traduzido para o alemão e, atualmente, está sendo traduzido para o francês.
Publicou artigos em diversos jornais e revistas científicas do país. Coordenou, de 1995 a 1998, o Curso de Especialização em Cultura e Arte Barroca no Instituto de Filosofia, Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto. Atualmente, faz a editoração da Revista do IFAC, uma publicação sobre cultura e arte barrocas da UFOP e leciona Filosofia da Arte para os cursos de Filosofia e Teatro. Organizou dois congressos internacionais sobre o barroco na cidade de Ouro Preto e, na Embaixada do Brasil em Paris, o Colóquio «Autour du Brésil Baroque» na ocasião da Exposição «Brésil Baroque: Entre Ciel et Terre» realizada no Museu do Petit Palais em Paris de 4 de novembro de 1999 à 4 de fevereiro de 2000.
Realizou leituras com sucesso de público na Casa de las Américas de Cuba, na Romanische Buchandlung em Berlin e na Cité Internationale Universitaire de Paris.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Morre o Padre Simões

BELO HORIZONTE (22/01/09) - “Os sinos das igrejas de Minas dobram em respeito a Padre Simões, esse símbolo da religiosidade mineira. Ele será, sempre, parte viva da história de Ouro Preto e do nosso Estado como homem de fé e intransigente defensor do nosso patrimônio imemorial. Assim como os fiéis da Matriz do Pilar de Ouro Preto e de toda Arquidiocese de Mariana, colhemos, em sua vida e sua obra, exemplos e lições de determinação, solidariedade e justiça. Tive a honra de ser abençoado por ele, assim como dele também recebi sábios conselhos que nos ajudaram a conduzir Minas nos tempos mais difíceis. Sua presença ficará para sempre entre nós. A ele, a nossa homenagem, o nosso reconhecimento, o nosso carinho e a nossa saudade”. Aécio Neves - Governador de Minas Gerais.

Padre Simões
morreu na cidade de Ouro Preto onde também será enterrado, Padre Simões ficou conhecido por defender o patrimônio histórico

Padre Simões


Falar das cidades é falar das pessoas, são estas que fazem aquelas. Ouro Preto é padre Simões, pois o digno sacerdote fez a cidade ser parte do que ela é hoje. Padre Simões foi Ouro Preto, pois a cidade, a urbe e o povo, sempre foram o epicentro de seu pensamento e sua obra.
Padre Simões descansou essa semana; eufemismo apropriado para uma vida de trabalhos sacerdotais. Dedico esse post mais à homenagem familiar, da relação pessoal entre nossos clãs muito anterior ao meu nascimento ou mesmo ao dele. A vida pública do Vigário do Pilar deixo para outros relatarem.
Quanto a minha relação com Pe Simões, vou apontar dois aspectos pessoais que ilustram tudo mais: em primeiro lugar, encontrei-me com ele no rito batismal, não como inúmeros que ele batizou no exercício de seu dever de sacerdote, mas também como afilhado: padre Simões e sua irmã, dona Lúcia, se tornaram meus padrinhos na casa de meus pais, onde recebi o sacramento às pressas, pois eu estava morrendo (felizmente, como podem constatar, escapei de morrer, mas não escapei de ser feito cristão à minha revelia). Em segundo lugar, ele me deu minha primeira bicicleta! Sabem a importância que tem para um moleque a primeira bicicleta? Pois é... Tendo me dado aquele presente, padre Simões garantiu em meu imaginário, eternamente, um lugar de respeito e gratidão. Isso para destacar apenas o mais importante de uma série de agrados durante toda minha meninice.
Não resisto, vou apontar mais uma coisa que fazia meu padrinho e que era absolutamente notável: ele gostava de picolés, por isso, quantas e quantas vezes, quando eu estava na casa dele (a casa paroquial), ao passar um menino vendendo picolé na rua, padre Simões nos comprava não um ou dois, mas mais de uma dúzia de picolés do Crispim (excelentes!) e chupávamos todos, um após outro... Pode haver homem mais fabuloso que o que nos dá bicicleta e compra montes de picolés?
Depois que fiquei adulto, dei pra ter opiniões diferentes das dele em muitas coisas: distanciamo-nos - que bobagem. O respeito e o afeto não foram prejudicados pela divergência.
Padre Zé, como meus familiares mais velhos se referem a ele, foi contemporâneo de grupo de minha tia Lybia; ela tinha grande afeição por ele. Para ilustrar esse artigo, uso a foto que ele ofereceu a ela, por ocasião de sua ordenação, e as páginas que ele inscreveu no livro de recordações dela.
Ficam a foto e as palavras como testemunho do afeto entre as pessoas e as famílias.
Fica o mais como tributo e memória de uma bicicleta roxa e muitos picolés de coco e limão.

domingo, 7 de dezembro de 2008

AQUIJA/ ZEM/ OS RESTOS/ DOIRMÃO/ I.F.C./ FALLECID-/ DO/ A 21 DE JULHO DE 1880/ ORAI POR/ ELL

Análise de documentação arquitetônico-funerária: As lápides representam a tentativa de permanência, o recado para a posteridade. E podem representar muito mais. O interesse dos historiadores por esse tipo de legado é corrente em diversas correntes historiográficas. Elas são, inegavelmente, fonte; registro palpável de dados e de vontades e idéias pretéritas. Fonte de história local, das mentalidades e inclusive outras vertentes.

Este texto está desenvolvido em um capítulo do livro:


Autor: Públio Athayde

Veja o livro a venda

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